Análise: militância, coerência e os limites eleitorais do MBL Renan Santos. Foto: Instagram do Renan Santos

Análise: militância, coerência e os limites eleitorais do MBL

Tamanho do texto:

A militância do MBL possui uma característica particular: organização e coerência no projeto de poder que acreditam. No entanto, isso é realmente suficiente para eleger Renan Santos?

As pesquisas eleitorais costumam ser tratadas como instrumentos suficientes para compreender uma disputa política em diversas democracias, como no Brasil. Nelas, observam-se intenções de voto, índices de rejeição, grau de conhecimento dos candidatos e projeções para eventuais segundos turnos. O problema é que uma parcela significativa da dinâmica política brasileira escapa a essas métricas. Aspectos ligados à cultura política, às relações informais de poder e à própria fisiologia partidária frequentemente exercem influência decisiva sobre o comportamento eleitoral, sem que sejam plenamente captados pelos levantamentos dos institutos de pesquisa. 

Entre essas dinâmicas está a capacidade de mobilização que uma militância organizada confere a um candidato ou partido. O sistema partidário brasileiro apresenta uma característica peculiar nesse aspecto. Seja pelo personalismo eleitoral, pelo clientelismo ou por outros fatores estruturais da política nacional, fato é que, o país possui dezenas de partidos registrados, mas poucos contam com uma militância efetivamente ativa, capaz de defender um programa político para além dos ciclos eleitorais.

A maior parte das legendas funciona como instrumento de acomodação parlamentar e composição de coalizões, muitas vezes sem identidade ideológica clara ou base social mobilizada. Nesse contexto, partidos como o PT, alguns atores do PL, o PSOL e o recém-criado Missão, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), surgem como exceções, ainda que cada um possua estruturas de ativismo, formas de engajamento e objetivos políticos bastante distintos.

A comparação entre o MBL e os dois pólos da polarização brasileira ajuda a entender essa diferença. O lulismo/petismo, e o bolsonarismo são movimentos de massa, e sua força está associada, em partes, a lideranças com enorme capacidade de identificação popular. Não pelas pautas e seus respectivos programas, mas um apreço identitário e personalista à figura do líder. A defesa de suas lideranças costuma se apoiar em entregas materiais, símbolos políticos e pertencimento afetivo. O vínculo predominante não costuma ser programático nem sustentado por um projeto político de longo prazo. Não por acaso, a militância desses grupos costuma se mobilizar com mais intensidade para defender os feitos de suas lideranças quando estiveram anteriormente no poder — ou para confrontar adversários políticos — do que para sustentar, de forma sistemática e ideologicamente coerente, a existência de um projeto estratégico de país. 

A militância associada ao MBL opera de maneira distinta. Seu eixo de mobilização está menos na figura de um líder e mais na defesa do programa do partido. Se não fosse Renan Santos o pré-candidato à presidência, qualquer outro nome seria igualmente defendido pelos militantes da Missão. Isso produz um grupo mais homogêneo em termos ideológicos e, em muitos casos, mais exigente com seus próprios representantes. Episódios envolvendo figuras ligadas ao movimento, como as controvérsias em torno do deputado estadual Guto Zacarias ou conflitos internos com influenciadores próximos ao grupo, geraram cobranças públicas da própria base militante — suficiente para o próprio Renan Santos vir a público comentar sobre esses casos. Tal comportamento é relativamente incomum na política brasileira, onde a lógica tribal, e de afastamento público em relação ao partido, frequentemente substitui a fiscalização dos próprios aliados. Essa característica ajuda a explicar o desempenho do Renan no crescimento das pesquisas e nas redes sociais

Originário da internet, ele construiu audiência antes de construir capital eleitoral. Sua participação recente no Flow Podcast, que acumulou centenas de milhares de visualizações em poucas horas, demonstra capacidade de mobilização em nichos altamente engajados. 

“Isso me serviu como ferramenta [as redes] e gerar um público de melhor qualidade. Usei uma força que eu tinha, um cara de internet de vídeos longos, para construir uma base muito leal baseado nos princípios nossos”, afirmou o Renan em entrevista ao Flow Podcast na última quarta-feira (4). 

A fala do Renan demonstra que ele sabe quem é a sua militância. O problema é que audiência digital e viabilidade eleitoral nem sempre são variáveis equivalentes. Renan aparece com baixo reconhecimento nacional e mantém desempenho modesto em cenários de primeiro turno, segundo a pesquisa recente da Genial/Quaest. Ao mesmo tempo, apresenta crescimento em simulações de segundo turno, sendo o único nome oposicionista que ampliou sua votação no recorte entre abril e maio da pesquisa eleitoral. Isso sugere que parte do eleitorado de direita está disposta a migrar para sua candidatura quando confrontada com uma escolha binária, mas ainda não o enxerga como alternativa viável para liderar uma disputa nacional.

Coerência gera identidade, engajamento e fidelidade, mas não necessariamente escala. De fato, o eleitor que já acompanha política tende a valorizar consistência programática. O eleitor que ainda não escolheu um lado — ou se quer escolhe — avalia critérios mais pragmáticos. 

Há uma diferença importante entre convencer alguém de que um projeto é intelectualmente consistente e permitir o eleitor imaginar, ao passo de convencê-lo de que sua vida será melhor sob aquele projeto.

O desafio encontra explicação em uma das singularidades mais conhecidas da ciência política: eleições majoritárias costumam ser decididas pelo eleitor mediano. E o eleitor mediano brasileiro não organiza suas preferências prioritariamente em torno de debates programáticos ou coerência ideológica. A política nacional é percebida a partir de seus efeitos concretos sobre a vida cotidiana, especialmente no curtíssimo prazo — o que torna o jogo político mais viável para quem está com a máquina estatal na mão, seja por meio de distribuição de emendas ou medidas populistas. Isso ajuda a compreender também por que movimentos altamente coerentes nem sempre se transformam em movimentos majoritários, especialmente no contexto brasileiro, de alta fragmentação partidária. 

O caso do MBL talvez seja um dos mais interessantes da política brasileira contemporânea justamente por isso. Sua militância apresenta grau de organização e coerência ideológica incomum para os padrões da maioria dos partidos nacionais. Ao mesmo tempo, enfrenta o mesmo dilema que historicamente atingiu movimentos programáticos em democracias de massa: transformar convicção em popularidade — o que não é impossível. Estudos de comportamento políticos, como propostos por Norman Schofield, sugerem que a militância possui um papel crucial em aglutinar apoio justamente na fronteira entre o eleitor mediano e os ativistas políticos. 

Movimentos políticos brasileiros fortemente associados ao lulismo e ao bolsonarismo enfrentam dificuldades para ampliar sua base de apoio por meio da militância. Isso ocorre porque a coerência programática entre líderes, partidos e apoiadores torna-se secundária diante da centralidade da figura política. Para o eleitor radicalmente bolsonarista, por exemplo, costuma ser mais simples defender medidas concretas e de efeito imediato, como alterações na legislação da CNH, do que justificar decisões mais controversas do período de governo, como a indicação de Augusto Aras à Procuradoria-Geral da República ou selecionar o Supremo Tribunal Federal como principal opositor institucional. De forma semelhante, para parte do eleitorado lulista, é mais confortável celebrar pautas de apelo social imediato, como o debate sobre a escala 6×1, do que se posicionar sobre controvérsias envolvendo a gestão pública no caso do INSS ou eventuais incoerências em políticas tributárias como na “taxa das blusinhas”. Contradições, omissões ou decisões de maior complexidade institucional frequentemente são rebatidas ou confrontadas, o que distancia o eleitor mediano dessas militâncias radicalizadas.

As pesquisas recentes sugerem que Renan Santos possui espaço para crescer. Também sugerem que esse crescimento dependerá menos da consolidação de sua base atual e mais da capacidade de dialogar com um eleitorado que sequer acompanha os debates que mobilizam sua militância. Sugerem, também, que a militância possuí um papel fundamental na formação desse diálogo, já que a massa de apoiadores da Missão é distinta das duas vertentes de massa mais populares do Brasil, das quais jogam ao ostracismo qualquer opositor que apresente as incoerências práticas e programáticas de seus representantes. 

Ainda assim, questiona-se: o movimento tem controle sobre o comportamento da própria militância, e a radicalização de seus membros é improvável? Sem um porta-voz que se comunique diretamente com a massa “mblistíca”, definindo a agenda do ativismo partidário, o risco é de degradação das massas, tal qual o Brasil presenciou com o bolsonarismo entre 2019 e 2023, ou com o lulismo durante os seus primeiros mandatos, que falharam em se comunicar de maneira clara com o eleitorado e a própria militância.

Ainda assim, a história eleitoral brasileira mostra que campanhas são vencidas quando uma candidatura consegue ultrapassar os limites de sua própria tribo, mas também mostra que o brasileiro médio pouco se importa com reformas estruturais de longo prazo.

 

Compartilhar: