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OPINIÃO

A sombra de um gigante em água fresca

Entender esse encaixe de todos os acontecimentos em calma nas ruazinhas interioranas do Brasil de pedra não é nem para quem compõe esse cenário pré-Renascimento
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Aqui no interior, das tradições que retornam, a minha preferida é cadeira na calçada. Parece a dramaturgia de um vinil de Sá, Rodrix e Guarabyra nosso pós-país de agora. É de emocionar esse Brasil.

Os festivais de cultura popular já haviam sido mesmo dominados por burocratas da cultura, os coreógrafos de ciranda à solta e as peças interioranas vazias de gente e gente já salvas por editais, quem importa. Além do mais, não fosse o adolescente sertanejo universitário democratizando a autoestima de tantas pessoas a se arriscarem pelos bares a entreter o ambiente, tenho é medo de calcular o número de desempregados culturais.

Entender esse encaixe de todos os acontecimentos em calma nas ruazinhas interioranas do Brasil de pedra não é nem para quem compõe esse cenário pré-Renascimento: o olhar da mulher de sonhos em meia-idade de todo não acontecer, aceitando, pouco a pouco, o trânsito que lhe pertence, permitindo aos filhos continuar brincando após o ferimento.

As sinucas lotadas. As igrejas em fúria. A rendição das ruas ao espetáculo de si mesma, por mais que doa, é um fenômeno a ser apreciado, o público ocupa calçadas com antigas cadeiras de praia esgarçadas, lado a lado, posicionadas respeitosamente em direção à anfitriã da fachada. O ar de fora toma comboio de fuga, pois “- Ficar dentro de casa dá fome à toa”.

A constância no empurrar da bicicleta do senhor das roscas já não tão frescas me instiga, o desânimo que abafa o vendedor de picolé, seu agudo, quando alguém o chama é preciso gritar de novo, pois ele nem sempre acredita, e está quase sempre certo.

Entre tantos tons de miséria, a uniformizada revendedora de loterias não federais até entretém. Um instante de sonhos e fortuna logo reprimido por um sorriso incompleto, plateia é plateia, nem todas gostam de peças interativas.

Buscam algo pela rua os cães, dão inveja até certa idade, desviam de pedras com habilidade cênica, nos olhos dos moradores das calçadas uma curiosidade repentina volta a existir, um riso quase, um flerte por exercer, uma permissão ao macabro.

Um Brasil de ruas em que é chegar e assistir, sem vida, sem Lei Rouanet ou passaporte da vacina.


Quem é Gustavo Caldeira Ministério?

Gustavo Caldeira Ministério é teatrólogo

* As opiniões das colunas são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a visão do Canal MyNews


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