Primeira-dama, Janja Lula da Silva, durante a abertura da Semana Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Previdência
A primeira-dama perdeu a chance de ajudar donas de casa a formalizarem sua situação no INSS e aumentar a proteção dessas trabalhadoras
Janja perdeu uma oportunidade incrível. Numa tacada só, a primeira-dama poderia ter chamado milhões de donas de casa brasileiras para regularizarem sua situação na Previdência Social, formalizando o trabalho dessas mulheres, protegendo-as na maturidade e ainda ajudando o governo do próprio marido, que enfrenta um problema fiscal brutal. Em vez disso, escolheu apagá-las.
Na segunda-feira, em entrevista ao programa Frente a Frente, parceria do UOL com a Folha de S.Paulo, Janja afirmou que o Brasil “nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse efetivamente”. A frase provocou reação imediata: a Fundação FHC lembrou a trajetória de Ruth Cardoso, antropóloga, professora da USP e criadora do Comunidade Solidária; aliados de Michelle Bolsonaro reagiram; e pessoas próximas à família de Marisa Letícia recordaram o trabalho que ela fez, nos bastidores e fora deles, ao longo de décadas.
Mas o problema da frase é maior do que a disputa entre primeiras-damas. Ele está no verbo. O que Janja chama de “trabalhar efetivamente”, reuniões, agendas, viagens, é a definição de trabalho de uma sociedade que só reconhece o que tem crachá, salário e diária. É exatamente essa régua que torna invisível o trabalho de milhões de brasileiras que lavam, passam, cozinham, cuidam de filhos e de idosos todos os dias, sem carteira, sem salário, sem férias e, na maioria dos casos, sem qualquer reconhecimento, nem dos maridos, nem do Estado.
Essas mulheres trabalham, e muito. Os dados do IBGE mostram, ano após ano, que as brasileiras dedicam quase o dobro de horas semanais dos homens aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. É trabalho que sustenta a economia: sem ele, ninguém sai de casa para “trabalhar efetivamente”. Quando a primeira-dama do Brasil diz que trabalho é só o que acontece no Palácio do Planalto, ela pensa exatamente como a sociedade machista que diz combater, aquela que olha para a mulher que trabalha para a própria família e conclui que ela não trabalha.
E aqui está a oportunidade desperdiçada. A dona de casa pode contribuir para o INSS como segurada facultativa. Com isso, ela garante aposentadoria por idade, auxílio-doença, salário-maternidade e pensão para os dependentes. Constrói patrimônio previdenciário. Deixa de depender exclusivamente do marido na velhice, que é quando a dependência cobra o preço mais alto.
O ganho não é só dela. Cada dona de casa que se formaliza é uma contribuinte a mais entrando no sistema, receita nova para uma Previdência pressionada e para um governo que passa o ano inteiro caçando espaço no Orçamento. Formalizar o trabalho doméstico não remunerado é política social e política fiscal ao mesmo tempo. É o tipo de bandeira que uma primeira-dama que se apresenta como defensora das mulheres poderia carregar com legitimidade, e com microfone garantido.
Janja tem razão em um ponto: há misoginia de sobra nas críticas que recebe. Mas a resposta à misoginia não pode ser apagar o trabalho das outras mulheres, as que vieram antes dela no Alvorada e, principalmente, as milhões que nunca vão pisar lá. A primeira-dama que quer ser reconhecida pelo próprio trabalho tinha nas mãos a chance de fazer o país reconhecer o trabalho de todas. Preferiu falar de si.