Governo Lula termina a semana saindo das cordas Foto: Valor Econômico

Governo Lula termina a semana saindo das cordas

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Após uma semana difícil — marcada pela derrota na indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal —, o governo Lula encerra os últimos dias em posição mais confortável, beneficiado por uma combinação de fatores que, juntos, alteram o clima político em seu favor. O início da semana trouxe o relançamento do Desenrola, programa de […]

Após uma semana difícil — marcada pela derrota na indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal —, o governo Lula encerra os últimos dias em posição mais confortável, beneficiado por uma combinação de fatores que, juntos, alteram o clima político em seu favor.

O início da semana trouxe o relançamento do Desenrola, programa de renegociação de dívidas que recoloca o governo no terreno das entregas concretas à população. Contudo, foi a viagem presidencial ao exterior que produziu o impacto simbólico mais imediato: recebido com cordialidade por Donald Trump, Lula aproveitou o encontro para neutralizar uma das narrativas mais persistentes do bolsonarismo — a de que o atual governo estaria isolado da principal potência do hemisfério. Trump, como se sabe, gosta de, ao cumprimentar outros Chefes de Estado, usar de sua estatura e de um aperto de mão vigoroso e, com isso, demonstrar força e poder. Se tal fato se deu com Lula, isso não foi perceptível. Mas, foi percebida a foto de Trump com um largo sorriso ao lado do presidente brasileiro, diferente de outras vezes que fazia cara de sério e até de raiva ao se deixar fotografar.  Em ano eleitoral – com a projeção de manutenção da polarização entre lulismo e bolsonarismo – esse gesto diplomático tem valor político nada desprezível.

No entanto, o episódio de maior peso na semana não veio do Palácio do Planalto, mas da Polícia Federal. A operação de busca e apreensão na residência de Ciro Nogueira, presidente do Partido Progressista (PP), sacudiu o Centrão e redefiniu, por enquanto, a correlação de forças no Congresso. Nogueira é investigado por suposto recebimento de vantagens indevidas de Daniel Vorcaro no contexto do caso Banco Master: uma mesada estimada entre R$ 300 mil e R$ 500 mil mensais, pagamentos via cartão de crédito, hospedagens em hotéis de luxo nos Estados Unidos e o uso de um imóvel de alto padrão que, segundo as investigações, pertenceria ao empresário.

A relevância política do episódio vai além da figura do investigado. Ciro Nogueira é uma das principais lideranças do Centrão, bloco que sustenta governabilidade em Brasília independentemente de quem ocupe a Presidência. Rememore-se, ainda, que ele foi ministro do Governo Bolsonaro e um hábil articulador político que evitou, junto com outros atores, um processo de impeachment contra Bolsonaro.  Com ele na berlinda, o PP e seus aliados entram numa posição defensiva que, por ora, retira pressão do governo federal e desloca o eixo das atenções do Palácio do Planalto para o interior da base parlamentar. Mais do que isso: Ciro Nogueira era cotado para uma possível vaga como vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro. O senador e pré-candidato divulgou nota tímida e protocolar em relação ao ocorrido, todavia, não escapará do desgaste que os petistas e o campo da esquerda promoverão ao associar estes dois personagens.

A conjuntura, portanto, favoreceu Lula sem que o governo precisasse protagonizar os acontecimentos. Em política, sair das cordas com a ajuda dos adversários é, muitas vezes, tão valioso quanto vencer por mérito próprio. O desafio, agora, é transformar esse fôlego momentâneo em agenda propositiva antes que a semana seguinte traga novas turbulências. O governo, hoje, tem uma estratégia, penso eu, dupla: a) melhorar sua avaliação e diminuir a alta rejeição e b) desgastar Flávio Bolsonaro de todas as formas possíveis.

Em eleições polarizadas fatos considerados menores podem ser nitroglicerina pura e fazer a diferença na percepção dos eleitores e nas urnas em outubro.

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