Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
POLÍTICA
Pressões sobre CPMI para preservar oficiais revelam um recuo no compromisso de despolitizar quartéis.
Ou nunca foi para valer, ou houve uma inflexão na retórica do comandante do Exército, general Tomás Paiva, desde que assumiu a função com postura legalista e compromisso com a punição dos militares envolvidos no enredo golpista.
O discurso do general, imediatamente anterior à sua posse, combinado com a nomeação de José Múcio Monteiro, parecia encerrar uma dúvida polêmica – se o momento pedia mais ordem unida que diplomacia, ou vice-versa, prevalecendo esta última como uma escolha pessoal do presidente Lula.
Com a CPMI orientada pelas investigações oficiais, depoimentos e quebras de sigilos requeridos pela base governista começaram a esbarrar na pressão do comandante Tomás, análoga ao bloqueio de tanques com a qual o Exército impediu o desmonte do acampamento à frente de seu QG, pela Polícia Militar do Distrito Federal.
A pretexto de preservar a imagem da instituição, o general de discurso legalista mostra que na prática tem dificuldades com a teoria, posta a serviço de uma diplomacia de ocasião que pretende consolidar agora, quem sabe investindo numa anistia a generais.
De fato, o Exército indica ter operado com o fator tempo, estratégia clássica, mas sempre eficiente, para preservar mais que a instituição – os intocáveis integrantes da família militar. Quando quis, ao longo da história, as Forças Armadas sempre souberam aplicar a seu modo o marketing do braço forte e mão amiga.
Não há razão politicamente honesta para se impedir a convocação do ex-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira, empenhado claramente em disseminar a suspeita sobre o sistema eleitoral brasileiro durante o exercício do cargo. Chegou a receber o hacker Walter Delgatti para esse objetivo, razão pertinente pela qual a CPMI quer ouvi-lo.
Nogueira parece ser o limite riscado no chão como fronteira intransponível para as investigações – pelo menos, as da CPMI. Afinal sua condição de ministro da Defesa foi precedida pela de comandante do Exército, posto ao qual chegou com a demissão do general Fernando Azevedo, defenestrado por não se alinhar à trama de Jair Bolsonaro. E, agora, ocupado Por Tomás Paiva.
A preocupação com a defesa da instituição é mero pretexto, impulsionado pelo temor do aprofundamento do desgaste de imagem revelado em pesquisas recentes. Ao invés de depurar o ambiente, Tomás acendeu o sinal vermelho para a CPMI.
Aqui se pode perceber a digital do líder maior, general Villas Boas, que anteriormente já divulgara um twitter de advertência ao Supremo Tribunal Federal para impedir a revisão do caso Lula. Uma senha também para o público interno e o eleitorado fanático.
Cuidadoso com as palavras, Tomás Paiva defendeu-se das desconfianças com novo discurso legalista em que reitera o compromisso de não compactuar com eventuais desvios de conduta, que terão seu “repúdio e correção”. Já punição é outra história.
O general Tomás não se manifesta sobre a prisão privilegiada do tenente-coronel Mauro Cid que lhe permite, longe das vistas de todos, receber visitas implicadas no mesmo delito que ele para combinar versões de depoimentos.
Foi preciso que o STF formalizasse a proibição para que Cid se reunisse com os cúmplices dos crimes pelos quais é acusado, motivo primeiro a determinar sua prisão preventiva. Entre esses, seu pai, o general Lourena Cid, outro que a CPMI não consegue convocar.
A prevalecer os critérios e as pressões do comandante Tomás Paiva, a instituição Forças Armadas sairão desse episódio como um clube militar preservado pelo poder que ainda infunde, pela chamada força dissuasória, e não pela confiança da sociedade.
Há velhos generais e generais velhos. O comandante Tomás Paiva parece traçar seu rumo de forma a perfilar-se entre esses últimos.